- Relatório da UNU-INWEH aponta que a transição para energia limpa traz crise ambiental e de saúde que atingem principalmente comunidades pobres; os benefícios vão para o Norte Global, em veículos elétricos, energia renovável e IA.
- Em 2024, a produção mundial de lítio, cerca de 240 mil toneladas, consumiu 456 bilhões de litros de água, volume suficiente para suprir as necessidades de 62 milhões de pessoas na África Subsaariana.
- Impactos locais incluem: Salar de Atacama, no Chile, respondendo por até 65% do uso regional de água; Uyuni, na Bolívia, com redução de cultivo de quinoa; e a mina Thacker Pass, nos EUA, que pode desviar 3,5 bilhões de litros de água anualmente.
- Na saúde, a República Democrática do Congo registra 72% de moradores próximos às minas com doenças de pele e 56% de mulheres com problemas ginecológicos; também há elevados casos de má-formação congênita e uso de trabalho infantil em algumas minas.
- Recomendações do estudo: padrões obrigatórios de due diligence, controle de águas residuais, maior reciclagem de baterias e componentes, e proteção ao Consentimento Livre, Prévio e Informado de comunidades indígenas.
A crise ambiental e de saúde associada à busca por minerais críticos ganha destaque em um estudo da UNU-INWEH, órgão da Universidade das Nações Unidas. A pesquisa aponta que a transição para energia limpa aumenta a pressão sobre água e comunidades vulneráveis, principalmente no Sul Global.
O relatório Critical Minerals, Water Insecurity and Justice afirma que os custos da mineração recaem sobre populações pobres, enquanto os benefícios aparecem de forma concentrada no Norte Global, via veículos elétricos, energia renovável e IA. A denúncia não questiona a necessidade de tecnologias limpas.
A análise destaca o peso da água na mineração de minerais críticos. Em 2024, a produção global de lítio, em torno de 240 mil toneladas, utilizou aproximadamente 456 bilhões de litros de água, suficiente para atender o consumo doméstico de cerca de 62 milhões de pessoas na África Subsaariana.
Impacto ambiental e hídrico
No Chile, do Salar de Atacama, a mineração de lítio consome até 65% da água regional, com quedas de até nove metros no nível de lençóis freáticos entre 1990 e 2015. Em Bolivia, comunidades de Uyuni sofrem com escassez de água que afeta a quinoa, base econômica local. Nos EUA, a mina Thacker Pass pode desviar bilhões de litros de água para áreas agrícolas.
Globalmente, 16% das reservas ficam em zonas de alto estresse hídrico, e mais da metade dos projetos operam perto de territórios indígenas. A saúde pública é impactada, com relatos de doenças de pele e problemas ginecológicos entre moradores próximos a minas na África.
Impacto na saúde e no legado da mineração
Segundo o estudo, a contaminação por metais pesados atinge a próxima geração: há taxas de defeitos congênitos associadas às áreas de mineração. Também há uso de trabalho infantil em cerca de 30% das minas da República Democrática do Congo, conforme o relatório, com crianças expostas a riscos sem proteção.
Para cada tonelada de terras-raras extraída, surgem grandes volumes de resíduos tóxicos. Em 2024, a produção global gerou cerca de 707 milhões de toneladas de rejeitos, o equivalente a uma fila de caminhões que contornaria a Linha do Equador várias vezes.
Desigualdade econômica e recomendações institucionais
A RDC concentra grande parte da produção, sob controle de mineradoras estrangeiras, enquanto a população vive com renda baixa. O relatório aponta necessidade de governança global mais rígida, com padrões obrigatórios de due diligence, monitoramento independente de metais pesados e metas de reciclagem avançada.
Entre as propostas estão: descarte zero de águas residuais, proteção legal ao consentimento de comunidades indígenas e incentivos à economia circular para reduzir a mineração primária. Sem mudanças, alertam os autores, a transição para energia limpa pode ampliar injustiças.
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