- Estudo internacional liderado pela USP e pela UPF sequenceou 128 genomas inéditos de populações indígenas de oito países, compondo a maior base genômica já reunida sobre povos indígenas americanos.
- Juntando dados de pesquisas anteriores, a análise abrangeu 199 genomas de 53 populações e 31 famílias linguísticas.
- O trabalho identifica três ondas migratórias rumo à América: de Beringia há cerca de 15 mil anos, uma segunda onda para o sul há cerca de 9 mil anos e uma terceira vindo da Mesoamérica há pelo menos 1,3 mil anos.
- A colonização europeia provocou uma redução de cerca de 90% na diversidade genética indígena; neonantais e denisovanos contribuíram com 1% a 3% do genoma, e 2% da ancestralidade vem da população Y.
- Existem áreas ainda pouco representadas, como a Amazônia e os Andes, e os autores ressaltam a importância de ampliar o estudo para compreender a saúde e a evolução das populações americanas.
A pesquisa, publicada na revista Nature, aponta que a colonização europeia reduziu a diversidade genética indígena na América. Liderado pela USP e pela UPF, o estudo analisou genomas de populações indígenas em vários países das Américas.
Foram sequenciados 128 genomas inéditos, representando 45 populações e 28 famílias linguísticas, em Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. Juntando dados anteriores, somam-se 199 genomas.
Os autores afirmam que essa é a maior base genômica já reunida sobre povos indígenas americanos, que durante muito tempo ficaram sub-representados nos mapas genéticos. A démarche amplia a compreensão da história demográfica.
A análise permite traçar relações de ancestralidade, rotas migratórias e processos evolutivos que ocorreram ao longo de milênios. Também identifica variantes genéticas até então não descritas em bases internacionais.
Mais de um milhão de variantes foram encontradas, algumas com potencial relevância biomédica. A diversidade genética indígena pode contribuir para previsões, prevenção e tratamentos mais adequados às populações da região.
Ainda existem áreas com pouca representação, especialmente na Amazônia, nos Andes e em partes da América Central e do Norte, conforme os pesquisadores. Regiões remotas seguem com lacunas de dados.
Três ondas migratórias rumo à América
A pesquisa sustenta que, excetuando-se povos do Ártico, todos os indígenas americanos descendem de uma origem comum, vinda via Beringia há cerca de 15 mil anos. A primeira expansão trouxe DNA de neandertais e denisovanos.
Cerca de 9 mil anos depois ocorreu uma segunda onda migratória, da América do Norte para o sul, deixando forte marca genética na maior parte da América do Sul. Houve substituição de grande parte da herança anterior.
Especialistas destacam ainda uma terceira onda, há pelo menos 1,3 mil anos, vindo do sul do México para a América do Sul e o Caribe, sugerindo conexões mais recentes entre as regiões.
O gargalo da colonização
A entrada europeia provocou um gargalo na diversidade genética, dizimando populações indígenas em até 90%. Em algumas áreas há continuidade genética de mais de 9 mil anos, mesmo após o encontro com colonizadores.
Entre 1% e 3% do genoma atual corresponde a neandertais e denisovanos, contribuindo para adaptação. Cerca de 2% do genoma guarda a herança da população Y, ou Ypykuéra, ligada a históricos laços com o sul da Ásia.
Essa ancestralidade estaria presente desde os primeiros momentos de povoamento, mantendo-se estável por milênios, em parte devido à seleção natural e à adaptação ambiental.
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