- Vacinas de RNA mensageiro devem revolucionar o tratamento do câncer, segundo o CEO do A. C. Camargo, Victor Piana, que explica como o RNA instrui o corpo a produzir fragmentos tumorais para treinar o sistema imune.
- A Universidade de Oxford firmou parceria com o Ministério da Saúde e com hospitais brasileiros para conduzir estudos clínicos dessas terapias no Brasil.
- Pesquisas do A. C. Camargo buscam manter a eficácia de tratamentos existentes com menos efeitos colaterais, inclusive usando protocolos que reduzem doses de medicamento antes da cirurgia em melanoma e câncer de pulmão.
- As células CAR-T, terapias oncológicas de alto custo que chegam a mais de 2 milhões de reais por paciente, devem ter preços mais acessíveis; a instituição busca acordos de compartilhamento de risco com farmacêuticas para pagar pelo tratamento apenas quando houver boa resposta.
- O hospital atua para ampliar o acesso a tratamentos caros e promover inovação em oncologia, defendendo modelos de remuneração que valorizem qualidade em vez de volume.
Victor Piana, CEO do A.C. Camargo Cancer Center, afirma que vacinas de RNA mensageiro devem ser a próxima grande revolução no tratamento do câncer. A declaração foi dada durante entrevista ao Pulsa no São Paulo Innovation Week.
Segundo Piana, a tecnologia usa RNA mensageiro para instruir o corpo a fabricar fragmentos de proteínas presentes em células tumorais. O sistema imune é treinado para reconhecer e atacar essas células com marcadores específicos.
Ele exemplificou a ideia de complementar cirurgia com uma vacina que mantenha o sistema imune ativo, reduzindo a necessidade de quimioterapia pesada. A intervenção permitiria atacar microdoses de tumor que persistem após a cirurgia.
Parcerias e pesquisa clínica
Piana lembrou que a Universidade de Oxford firmou parceria com o Ministério da Saúde e hospitais brasileiros, incluindo o A.C. Camargo, para estudos clínicos no Brasil. O objetivo é testar protocolos promissores no país.
O médico citou ainda pesquisas no A.C. Camargo que buscam reduzir efeitos colaterais mantendo a eficácia de tratamentos existentes. Protocolos que exigiam dois anos de medicamento podem, em alguns casos, ser reduzidos a quatro doses pré ou pós-operatórias.
Ele citou exemplos em melanoma e câncer de pulmão, onde quatro a cinco aplicações podem substituir tratamentos prolongados, aumentando a tolerabilidade e reduzindo custos. O hospital participa de estudos com diferentes linhas terapêuticas.
Acesso a terapias de alto custo
Piana abordou o desafio do alto custo das terapias como as células CAR-T, voltadas a leucemias, linfomas e mieloma múltiplo, cujos valores podem superar 2 milhões de reais por paciente. Ele aposta em gerações futuras com menor custo.
O CEO informou que o A.C. Camargo busca acordos de compartilhamento de risco com farmacêuticas para a CAR-T. Nesses contratos, a empresa só recebe pelo tratamento se houver boa resposta, com devolução de estoques caso não haja eficácia.
Desde 2022, o centro já assinou seis acordos semelhantes para outros medicamentos oncológicos e busca a primeira parceria para CAR-T. A iniciativa visa realinhar remuneração à efetividade do tratamento.
Modelo de remuneração e inovação
Piana defende modelos em que a remuneração foque na qualidade do tratamento e não apenas no volume de intervenções. O A.C. Camargo atua como conciliador entre indústria farmacêutica e financiadores, contribuindo com dados e avaliação de eficácia.
Ao falar sobre o futuro, ele reforçou a crença de que as próximas gerações de CAR-T serão mais eficientes e mais baratas. Centros como Brasil, Espanha e Índia já desenvolvem CAR-T próprio para reduzir custos.
Perspectivas nacionais
O executivo destacou a participação brasileira em consórcios para vacinas oncológicas, com participação de Fiocruz, Inca e outros hospitais do Proadi. O Brasil trabalha com Oxford para iniciar estudo de vacina de câncer de pulmão em fase 1.
Piana ressaltou que o Brasil tem tradição de produção de vacinas e que o país pode acelerar testes com participação institucional. O objetivo é ampliar acesso a tratamentos inovadores sem comprometer a segurança.
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