- Em 2024, a Amazônia brasileira enfrentou uma das piores temporadas de incêndios, com 15,6 milhões de hectares queimados, sendo 43% de vegetação florestal, e área 117% acima da média histórica.
- Um estudo de duas décadas mostra que a floresta pode se regenerar após incêndios, mas a perda de biodiversidade persiste, resultando em um novo ecossistema mais pobre e com mais espécies generalistas.
- No sul da Amazônia, em Mato Grosso, um experimento de 150 hectares divididos em três parcelas (queimada anual, queimada a cada três anos e controle) indicou rápida recuperação, mas queda de diversidade de plantas nas bordas, entre 31,3% e 50,8%.
- Não houve evidência de savanização; houve aumento inicial da cobertura de árvores e competição com Gramíneas, que desapareceu com o fechamento do dossel.
- O estudo aponta que, para recuperação de áreas degradadas, é essencial evitar fogo e investir em proteção e manejo; plantio isolado não substitui políticas públicas que permitam a recuperação natural.
In 2024, a temporada de queimadas na Amazônia brasileira alcançou níveis recordes, com 15,6 milhões de hectares queimada. A área equivale ao tamanho de Portugal, e 43% do território atingido era vegetação florestal. Segundo MapBiomas, o dano foi 117% maior que a média histórica.
Um grupo de cientistas avaliou a capacidade de regeneração das florestas após os incêndios em uma região do sudeste amazônico, buscando entender riscos para a maior floresta do planeta diante da queima, desmatamento e secas cada vez mais frequentes.
O estudo, iniciado em 2004 e publicado em 2026 na Proceedings of the National Academy of Sciences, concentra-se no Mato Grosso, próximo à Tanguro Research Station, laboratório-chave da equipe liderada por Leandro Maracahipes.
Resiliência e mudanças na composição
A área amostrada tinha 150 hectares, divididos em três plots: queimar anualmente, queimar a cada três anos e um controle sem queimadas. A recuperação ecológica ocorreu rapidamente, mas houve alteração na diversidade de espécies na floresta emergente.
Nas zonas de borda, espécies generalistas de crescimento rápido passaram a predominar, com menor presença de plantas típicas de floresta densa. Entre as mudas mais comuns estavam Mabea fistulifera e Tachigali vulgaris.
Desafios e alcance da savanização
O estudo aponta queda na diversidade de espécies entre 31,3% e 50,8% nas bordas, deixando a floresta mais vulnerável a distúrbios futuros. Não houve evidência de savanização: as gramíneas não ganharam domínio, e o fechamento do dossel freou esse processo.
Especialistas ouvidos pelos pesquisadores discutiram que, mesmo com a recuperação, o ecossistema resultante é mais pobre e exige cuidados para preservar espécies-chave e a fauna associada. A necessidade de políticas públicas de proteção ficou clara.
Perspectivas e políticas públicas
Coautor Paulo Brando destaca que a resiliência ecológica é alta quando a floresta recebe proteção adequada e condições naturais de regeneração. Ele ressalta que a recuperação de áreas degradadas pode ocorrer mais rápido do que projetos de reflorestamento.
Os autores sugerem que evitar pressões contínuas — fogo, desmatamento e ocupação agropecuária — é vital para manter a recuperação. A estratégia de prevenção de incêndios aparece como ferramenta central para a proteção da Amazônia.
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