- A mabuia-de-Noronha é lagarto endêmico do arquipélago, resultado de isolamento evolutivo ao longo de milhões de anos.
- A reprodução é lenta: muitas fêmeas produzem apenas dois ovos por vez, a cada dois ou três anos, com acasalamento na estação seca.
- Os filhotes são grandes em relação ao tamanho da mãe, indicando alto investimento em cada descendente.
- O padrão reprodutivo, vantajoso no passado, pode reduzir a capacidade de recuperação diante de predadores introduzidos e mudanças ambientais.
- A pesquisa destaca a importância de entender a biologia reprodutiva para conservar a espécie; uma fêmea grávida foi atropelada, ilustrando pressões recentes.
A pesquisa investiga como o ambiente insular moldou a reprodução da mabuia-de-Noronha, o lagarto Trachylepis atlantica, endêmico de Fernando de Noronha. O arquipélago, a cerca de 545 km da costa de Pernambuco, funciona como laboratório natural de evolução devido ao seu isolamento.
Ao longo de milhões de anos, a espécie evoluiu nesse ambiente isolado, distinto do continente africano. A mabuia-de-Noronha circula entre rochas, trilhas e áreas urbanas, aproxima-se de pessoas e disputa alimento, sem fuga frequente.
O estudo descreve uma estratégia reprodutiva incomum: poucos filhotes por ciclo, dois ovos por ninhada, e reprodução a cada dois a três anos, concentrada na estação seca. O investimento é alto em cada descendente.
Ilhas como laboratórios naturais da evolução
Ilhas oceânicas costumam abrigar menos espécies, com menos predadores e competição, mas densas em algumas populações. Esses fatores favorecem padrões de isolamento evolutivo, como a “síndrome da ilha”.
Essa síndrome pode afetar comportamento, tamanho, dieta, fisiologia e estratégias reprodutivas. Na Noronha, esses elementos aparecem na forma de reprodução lenta e de maior investimento por filhote.
Impactos da mudança ambiental
A reprodução menos frequente torna a espécie mais vulnerável a alterações rápidas no ambiente. Predadores introduzidos e urbanização ampliam pressões sobre a mabuia-de-Noronha, reduzindo a capacidade de recuperação diante de perdas.
A investigação envolveu coleta de campo, acervos e exemplares de zoológico para registrar o padrão reprodutivo e comparar com parentes africanos e com ilhas maiores. O padrão observado é incomum entre lagartos da região.
Embora não haja confirmação de risco imediato, pesquisadores destacam a importância de entender a biologia reprodutiva para orientar conservação futura. Aconstatação reforça a relação entre isolamento histórico e vulnerabilidade atual.
Este estudo aponta como o passado evolutivo molda respostas a ameaças presentes, ressaltando a necessidade de monitoramento contínuo da mabuia-de-Noronha.
— Henrique B. Braz, Selma Maria Almeida-Santos e Serena Najara Migliore, Instituto Butantan, contribuíram para a pesquisa. —
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