- O Vietnã desmatou 207 mil hectares de floresta entre 1990 e 2022 para expandir a cafeicultura, área equivalente ao território de Luxemburgo e que representa 30% das cerca de 700 mil hectares de plantação atuais.
- O país é o segundo maior produtor de café do mundo, ficando atrás apenas do Brasil, e responde por cerca de 1 em cada 5 xícaras consumidas globalmente.
- A maior parte do desmate ocorreu nas Terras Altas Centrais, onde atualmente se concentra 93% da produção vietnamita, reduzindo a cobertura florestal regional de 43% em 1990 para 19% em 2020.
- O desmatamento derrubou os sistemas ecológicos de rega: entre 57% e 95% da água de irrigação vem de aquíferos; poços que antes tinham 10 a 15 metros de profundidade passaram a exigir até 45 metros.
- A situação pode piorar com o El Niño histórico já em curso: a NOAA prevê 63% de chance de intensidade muito forte entre novembro e janeiro, com possibilidade de ficar entre os recordes desde 1950.
O Vietnã desmatou 207 mil hectares de floresta entre 1990 e 2022 para ampliar a cafeicultura, segundo um relatório da Coffee Watch obtido com exclusividade pela Folha. A área corresponde a 30% das plantações de café do país e equivale ao território de Luxemburgo.
O estudo usa imagens de satélite para estimar o desmatamento na região das Terras Altas Centrais, onde 93% do café vietnamita é cultivado. A maior parte do desmatamento ocorreu entre meados dos anos 1990 e 2010.
Entre 1990 e 2020, a cobertura florestal local caiu de 43% para 19%. O documento aponta que a expansão do cultivo comprometeu ecossistemas que regulam a água na região, com impactos nos recursos hídricos utilizados na cafeicultura.
A produção vietnamita de cafés cresceu significativamente nas últimas quatro décadas. Na década de 1980, a área cultivada era de 50 mil hectares; hoje o Vietnã figura entre os maiores produtores globais, respondendo por cerca de 1 em cada 5 xícaras consumidas no mundo.
A Coffee Watch estima que entre 57% e 95% da água de irrigação das lavouras vem de aquíferos subterrâneos. Poços que antes tinham 10 a 15 metros de profundidade passaram a exigir perfurações de até 45 metros.
O alerta se intensifica com a proximidade de um El Niño histórico. A NOAA confirmou o início do fenômeno e aponta 63% de chance de intensificação muito forte entre novembro e janeiro. O organismo também indica possibilidade de records desde 1950.
Durante o El Niño de 2015–2016, os reservatórios das Terras Altas caíram consideravelmente e a vazão de rios diminuiu até 90%. Aproximadamente 150 mil hectares de terra agrícola foram afetados e a produção de café caiu até 25% nas áreas mais atingidas.
Etelle Higonnet, diretora da Coffee Watch, afirma à Folha que o café vietnamita enfrenta riscos maiores hoje do que em 2015. Segundo ela, desmatamento, uso excessivo de agrotóxicos e monocultura elevam a vulnerabilidade à nova temporada de El Niño.
O Vietnã produz majoritariamente o café da espécie canéfora, enquanto no Brasil predomina o arábica. O estudo da Coffee Watch cruzou dados de satélite com registros governamentais para estimar o desmatamento ligado ao café, integrando mapas de áreas cafeeiras ao reconhecimento de áreas florestais.
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