- Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP e do Hospital das Clínicas identificaram relação entre infecções virais, incluindo covid‑19, e dor crônica no conteúdo escrotal (CSCP), que pode afetar a qualidade de vida masculina.
- A CSCP tem prevalência estimada entre 0,4% e 4,75% da população mundial, e muitos casos não têm causa identificada, dificultando diagnóstico e tratamento.
- O estudo sugere que inflamação no testículo ou epidídimo e a degeneração walleriana dos nervos podem levar à dor persistente, com ativação do sistema imune e maior sensibilidade à dor.
- Além da dor, vírus analisados podem afetar fertilidade e função hormonal; o SARS‑CoV‑2 pode invadir células do sistema reprodutor e provocar alterações hormonais.
- Recomenda‑se ampliar a investigação clínica para infecções virais em casos de dor testicular persistente, evitar antibióticos desnecessários, adotar abordagem multidisciplinar e monitorar impactos hormonais e reprodutivos; estudo analisou 61 trabalhos.
Pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) e do Hospital das Clínicas (HC) da mesma instituição identificaram uma possível relação entre infecções virais, incluindo a covid-19, e a dor crônica no conteúdo escrotal. O estudo revisa evidências de que vírus como SARS-CoV-2, HIV e Zika podem desencadear processos inflamatórios no sistema reprodutor masculino, levando a desconforto persistente.
A pesquisa, publicada na revista Basic and Clinical Andrology, aponta que a dor crônica no conteúdo escrotal (CSCP) pode comprometer atividades diárias. Estima-se uma prevalência entre 0,4% e 4,75% da população mundial, com metade dos casos ainda sem causa identificada. Entre as hipóteses, destacam-se infecções virais associadas a inflamações e alterações neurológicas.
Segundo o coordenador do estudo, o professor Jorge Hallak, a relação entre covid-19 e o sistema reprodutor ainda é uma área em evolução. Ele ressalta que efeitos crônicos podem exigir cuidados adicionais mesmo anos após a pandemia, evidenciando a necessidade de ampliar a investigação clínica.
O trabalho descreve mecanismos biológicos que sustentam a hipótese, como inflamação prolongada no testículo ou no epidídimo, ativação do sistema imunológico e sensibilização dolorosa. Também menciona possíveis respostas autoimunes que manteriam o desconforto após a eliminação do vírus.
Além da dor, os vírus analisados podem impactar fertilidade e função hormonal. Pesquisas anteriores indicaram invasão de células do sistema reprodutor pelo SARS-CoV-2, com sinais de reação inflamatória intensa. Os autores sugerem que isso pode incluir redução da produção de espermatozoides e alterações hormonais em alguns casos.
Os autores defendem ampliar a investigação clínica em casos de dor testicular persistente, incluindo a avaliação de infecções virais no diagnóstico. Recomenda-se evitar antibióticos sem necessidade, adotar abordagens multidisciplinares para dor crônica e monitorar impactos hormonais e reprodutivos. Ainda são necessários mais estudos para confirmar os vínculos.
O estudo é parte do Projeto Temático Pós-Covid-19 e avaliou 61 trabalhos por meio de revisão sistemática da literatura internacional. O texto completo está disponível na revista pesquisada. Pesquisadores enfatizam que o avanço do conhecimento pode aprimorar diagnóstico, tratamento e qualidade de vida dos pacientes.
Fonte: Assessoria de Comunicação da FMUSP, adaptado para o Jornal da USP. Estagiária sob orientação de Simone Gomes
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