- Um bar de São Paulo mostra como redes sociais moldam o consumo: drinks proteicos sem álcool aparecem fora do cardápio, mas chegam aos stories dos clientes.
- Pesquisa da Abrasel com 1.417 estabelecimentos aponta que 61% dos empresários perceberam mudanças de comportamento ligadas ao uso de medicamentos como Ozempic e Mounjaro (GLP-1).
- Restaurantes e bares estão adaptando porções menores, opções sem álcool e promoções. Exemplos: Nou reduziu alguns pratos em trinta por cento; Santo Mar criou a promoção “Quarta do Mounjaro e do Bariátrico”.
- No exterior, menus enxutos e versões com menos álcool já ganham espaço, como Mindful Experience no The Fat Duck; no Brasil, o movimento inclui drinques menores, como os “baby drinks” do Caso Bar e opções com dose única ou meia-dose no Setim Bar.
- Dados de consumo mostram queda de pedidos de pratos principais e sobremesas, aumento de pratos para dividir e crescimento de compras de proteína, fibra e fruta no supermercado; ainda assim, muitos estabelecimentos não compensaram a redução das vendas.
Recentemente, o Resid Bar, em São Paulo, ganhou notoriedade por oferecer um drinque inédito que não está no cardápio. O coquetel Aurora, proteico e sem álcool, leva 20 g de proteína, frutas vermelhas, limão e manjericão. A novidade circula apenas em stories de clientes, não na carta.
O bar, que tem o chef Alex Atala entre os sócios, vive uma transformação associada à cultura de performance. O drinque virou suplemento, e o ambiente lembra uma academia. Enquanto o público busca opções de baixo teor alcoólico, redes sociais têm mostrado a ideia com mais força que o menu.
Esses sinais não são isolados. Dados da Abrasel apontam que 61% dos bares e restaurantes consultados já notaram mudanças no comportamento de consumo associadas a medicamentos como Ozempic e Wegovy. As canetas emagrecedoras elevam sensação de saciedade, reduzindo ingestões.
O efeito atinge o cardápio. Segundo a Abrasel, mais da metade dos empresários percebe queda no volume de pedidos de pratos principais, e 65% registraram menos sobremesas. Em contrapartida, há aumento de porções divididas entre clientes, cerca de 64%.
Em São Paulo, restaurantes têm adotado pratos menores. O Nou passou a oferecer versões 30% menores de itens como filé mignon com presunto cru, com preços ajustados. Programação similar aparece em promoções que combinam alimentação com prescrição médica.
O Santo Mar mistura criatividade e temática: a promoção Quarta do Mounjaro e do Bariátrico garante desconto de 30% no rodízio de frutos do mar para quem apresentar receita médica. Estabelecimentos fora do Brasil também exploram formato enxuto, com menus reduzidos em restaurantes premiados.
Além disso, coquetelaria experimenta alterações. O Caso Bar lançou os baby drinks, versões menores de clássicos, em copos gelados sem gelo. O Setim Bar oferece opções sem álcool e também doses inteiras ou meia-dose de destilado para quem quer menos álcool.
A mudança de hábitos também é observada no varejo. Um estudo da Scanntech para a Folha de S.Paulo, de 2022 a 2025, mostra incremento na venda de proteína, fibra e fruta, com suplementos de academia em alta. Produtos ultraprocessados recuam em parte das compras.
O cenário evidencia uma tendência de consumo mais focado em bem-estar e praticidade. Quatro em cada dez empresários relatam dificuldade em compensar a queda de demanda com outras receitas. A queda ocorre diante da chegada de versões genéricas de GLP-1 ao mercado.
O fenômeno, presente em espaços de alta gastronomia, também se manifesta na estratégia de comunicação dos estabelecimentos. Contentores visuais e conteúdos educativos sobre nutrição ganham alcance nas redes, impulsionando escolhas como bebidas não alcoólicas e porções menores.
A pergunta que fica é: como os bares e restaurantes vão se adaptar sem comprometer a experiência? O movimento aponta para uma redefinição de formatos, preços e comunicação, com o objetivo de manter clientela e receitas em meio a uma demanda por alimentação mais moderada.
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