- O Congresso aprovou, na CCJ, a PEC que propõe o fim da escala 6×1, encaminhando o texto para uma comissão especial, com 10 a 40 sessões para decidir sobre parecer e eventual votação no plenário.
- Empresas do comércio testam jornadas reduzidas, como 5×2 e 4×3, para manter funcionamento diário e reduzir desgaste; casos citados incluem uma hamburgueria em São Paulo, a Coffee Lab e o restaurante Gurumê.
- Os testes mostram impactos variados: alguns negócios mantêm ou aumentam faturamento e reduzem faltas, enquanto outros precisam reorganizar processos e equipes para manter a produtividade.
- Especialistas destacam que a relação entre redução de horas e produtividade depende do setor, porte e organização; estudos indicam aumento de bem‑estar, com custo médio do trabalho potencialmente maior, mas efeito agregado diverso conforme setor.
- Desafios de implementação incluem definir o modelo ideal, adaptar pequenas empresas e criar transições graduais que não prejudiquem competitividade, salários ou contratos existentes.
A proposta de reduzir a jornada de trabalho ganha cada vez mais espaço no debate público, sobretudo após a tramitação de uma emenda constitucional que discute o fim da escala 6×1. Pequenas e médias empresas já testam formatos mais curtos, como 5×2 e 4×3, buscando equilíbrio entre vida pessoal e atuação no varejo. As mudanças ocorrem em setores de atendimento contínuo, como bares, restaurantes e cafeterias.
No Congresso, a CCJ aprovou por unanimidade a PEC que propõe o fim da escala 6×1. O texto segue para uma comissão especial, com prazo de 10 a 40 sessões para discutir regra de transição antes de ir ao plenário. A medida tem como objetivo reduzir jornadas sem prejudicar empregos.
Modelos alternativos
Fernando Russell, dono de hamburguerias em São Paulo e no litoral, mudou a escala após anos de 6×1 e 5×2. Em junho de 2025, uma loja passou a abrir às segundas, reduzindo a carga semanal. O resultado financeiro ficou estável, com menos faltas e trocas de equipe, segundo o empresário.
O modelo foi estendido às demais unidades neste mês, com avaliação em curso. Russell destaca que o objetivo é manter lucratividade, mesmo com margem menor em casos de dificuldade de gestão. Ele reforça a necessidade de apoio governamental para pequenos negócios.
Na área de varejo de alimentação, a cafeteria Coffee Lab, de Isabela Raposeiras, ampliou para a escala 4×3 em julho de 2025. A prática mantém as lojas abertas todos os dias, com folgas consecutivas para equipes, e migra lentamente áreas administrativas para o 5×2.
Segundo a empresária, a mudança busca reduzir desgaste de quem lida com o público, preservando qualidade do atendimento. Ela aponta ganhos de eficiência após ajustes nos processos, além de crescimento do faturamento ao longo do ano.
A rede Gurumê, com unidades no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, iniciou em junho de 2025 a implementação da escala 5×2 em parte das unidades, com mapeamento de demanda por turno. A meta é melhorar retenção de funcionários e a experiência do cliente, sem aumento do quadro.
Jerônimo Bocayuva, sócio-fundador da Gurumê, afirma que a mudança busca equilíbrio entre vida pessoal e profissional. O projeto piloto será ampliado conforme a avaliação de resultados, com cautela quanto à replicabilidade em operações menores.
Produtividade e impactos da jornada reduzida
Especialistas apontam que os efeitos variam conforme setor, porte da empresa e organização de processos. Em ambientes com alta tecnologia e gestão por metas, a redução pode elevar produtividade. Em setores com maior necessidade de presença constante, o impacto tende a ser menor.
Estudos indicam que reduzir jornadas não implica necessariamente queda de atividade econômica. Um levantamento do Ipea, divulgado em 2026, estima custo adicional de 7,84% na remuneração com 40 horas semanais, mas impacto no custo operacional total fica abaixo de 1% em indústria e comércio.
Economistas ressaltam que ganhos dependem de reorganização da produção, atendimento e equipes. Investimento em tecnologia e automação pode sustentar a produtividade com menos horas trabalhadas. A saúde dos trabalhadores tende a se beneficiar com mais tempo de descanso.
Letícia Mameri, médica do trabalho, explica que jornadas extensas elevam riscos de fadiga e problemas de sono. Reduções bem planejadas costumam associar-se a melhor saúde física e mental, contribuindo para produtividade sustentável.
Desafios e dúvidas operacionais
A implementação de jornadas menores envolve desafios de definição de modelo, adequação de custos e organização de equipes. Pequenas empresas podem enfrentar maior dificuldade para recompor quadro, negociar acordos e manter a segurança jurídica.
Especialistas destacam a necessidade de transição gradual, com gestão, tecnologia e reorganização de processos. Não se trata apenas de reduzir horas, mas de reorganizar produção, atendimento e competitividade sem transferir custos para empregos, preços ou informalidade.
Representantes do setor de bares e restaurantes alertam para riscos de aumento de custos e escassez de mão de obra. Em funções com comissões, como garçons, reduzir dias trabalhados pode fazer diferença na renda, principalmente nos finais de semana.
Saúde mental e bem-estar no centro do debate
A redução da jornada pode favorecer a qualidade de vida, com menor estresse e distúrbios do sono. Trabalhadores com mais tempo livre tendem a apresentar maior engajamento e estabilidade, o que pode se refletir em desempenho ao longo do tempo.
Especialistas ressaltam que o benefício depende de planejamento e de uma distribuição compatível de tarefas. A análise precisa considerar impactos sociais, como cuidado de familiares e saúde pública, além do desempenho empresarial.
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