- A escritora franco-morocca Leïla Slimani está em residência no Museo del Prado, em Madrid, produzindo um novo texto inspirado na coleção do museu, especialmente nas pinturas escuras de Goya.
- Slimani afirma sentir a relação entre literatura e pintura como instinctiva, dizendo que às vezes coloca obras perto da mesa de trabalho para captar atmosfera e cor de cada livro.
- A autora comenta traumas familiares e a forma como sua obra busca entender contradições, poder e vulnerabilidade humana, incluindo temas presentes em obras anteriores como Adèle e Lullaby.
- Seu percurso envolve ascensão literária após ganhar o Prix Goncourt em dois mil e dezesseis e, mais tarde, receber convite de Emmanuel Macron para promover a língua francesa, posição que reconhece com foco na própria identidade.
- O projeto atual aborda memórias familiares e imigração, com foco na ideia de seguir em frente sem ficar preso ao passado, e o conceito de liberdade como algo parcial e sempre em construção.
Leila Slimani está em Madri, no Museo del Prado, participando da residência Writing the Prado. A visita ininterrupta ao museu inspira a produção de uma nova obra. O espaço funciona como oficina criativa para a autora.
Na instalação subterrânea, a escritora inclui uma seleção das Pinturas Negras de Goya, entre elas Saturno Devouring His Son, As Fadas e Sábado das Bruxas. Ela comenta a atmosfera sombria como chave para entender o futuro da arte.
Em entrevista, Slimani explica a ligação íntima entre literatura e pintura. Segundo ela, a cor de cada livro revela o ambiente emocional que se pretende transmitir ao leitor, e a prática de observar ajuda a definir o tom narrativo.
Trajetória e traços de inspiração
Nascida em Rabat, em 1981, Slimani cresceu em meio a uma família de profissionais. Mudou para Paris aos 17 anos para estudar, iniciando carreira como jornalista antes de publicar ficção.
Seu segundo romance, Lullaby, consolidou a fama internacional ao explorar violência, classe e maternidade. Em 2016, tornou-se a primeira ganhadora marroquina do Prêmio Goncourt, ampliando seu alcance cultural.
Mais tarde, Slimani recebeu convite de Emmanuel Macron para promover a língua francesa e a cultura francófona. Ela afirma ter sentido orgulho, apesar das perguntas sobre identidade que surgiram na época.
A escrita continua ligada a uma memória familiar marcada por um processo envolvendo o pai, preso por supostos desvios financeiros e exonerado postumadamente após sua morte. A experiência alimenta a ideia de justiça pela literatura.
Obra recente e temas recorrentes
A trilogia The Country of Others concentra-se em identidade e pertencimento, chegando a I’ll Take the Fire, lançado neste ano. A autora descreve o desafio de escrever sobre o pai e a complexidade de lidar com memórias difíceis.
Slimani defende que a nostalgia pode ser prejudicial ao emigrante e que é vital olhar para frente. Ela ressalta que a memória é seletiva, o que facilita seguir adiante sem ficarem amarras.
Entre as reflexões, a autora discute a liberdade como um ideal parcial e reconhece momentos de alienação. Ela não se rotula como exceção, reiterando a busca por nuanças na definição de identidade.
Sobre a residência no Prado
A permanência no Prado funciona como espaço privado para pensar e observar antes de escrever. Inicialmente houve bloqueio criativo, mas a autora encontrou no tempo dedicado ao estudo o impulso para produzir.
Antes de retornar a Lisboa, onde vive com o marido e dois filhos, Slimani descreve a experiência como um sonho realizado, com apoio da parceria entre o museu, a fundação Loewe e Granta en Español.
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