- Alia, de 19 anos, fugiu de Daykundi para Cabul para evitar o casamento e se matriculou em um curso de inglês, em meio às restrições de educação para meninas no Afeganistão.
- No país, escolas formais para meninas são proibidas desde 2021 para maiores de 12 anos; opções atuais são cursos privados caros e madrasas, que não substituem a educação formal.
- Muitas meninas enfrentam o futuro sem possibilidade de estudar ou trabalhar, levando milhões a considerarem o casamento como única saída.
- Shama, 18 anos, casou-se há quatro anos por pressão da mãe e hoje é mãe de duas filhas; ela lamenta ter perdido a chance de estudar e se tornar médica.
- Autoridades talibãs dizem haver avanços, como permissões para mulheres administrarem negócios, mas a maioria das meninas continua sem acesso à educação além da ensino fundamental, gerando continuidade de discriminação e insegurança.
Alia, cuja identidade foi preservada por segurança, viajou de sua aldeia até Kabul para fugir de um casamento forçado. A viagem de taxi ocorreu no ano passado, com a companhia de uma prima, sob regras que exigem que mulheres viagem acompanhadas por um parente masculino.
A chegada a Kabul marcou o início de uma tentativa de aprendizado: Alia se matriculou em um curso de inglês, uma opção cara e limitada a quem pode pagar. Educação formal continua interrompida para meninas acima de 12 anos no país.
Quase cinco anos se passaram desde a proibição imposta pelo regime talibã. Enquanto milhões de garotas ficam sem educação além do ensino básico, muitas famílias veem o casamento como única saída prática para as jovens.
A história de Alia não é comum apenas pela bravura; ela pertence a uma família com condições financeiras para buscar oportunidades, algo raro em um país com baixos índices de acesso básico conforme a ONU.
Antes da proibição, os pais de Alia encorajavam o sonho de se tornar piloto. Hoje, eles sugerem casamento como opção mais viável, embora continuem apoiando o curso de inglês com recursos próprios.
Entre as propostas de casamento, a jovem teme ser forçada a aceitar um matrimônio que lhe negaria liberdade. A resistência é marcada por promessas de espera, caso a família respeite sua autonomia.
Em Kabul, Shama enfrenta realidade semelhante. Migrou do estudo para a maternidade bem cedo, aos 18 anos, após pressão da mãe, em meio a um país em que meninas não têm garantia de escola.
A mãe de Shama, Kamila, trabalhou como faxineira para sustentar as filhas após a morte do marido. Ela relata o medo de interferência de autoridades e a perda de oportunidades para as filhas.
Shama lamenta ter perdido a chance de se tornar médica e relata desgaste emocional ao ver personagens femininas trabalhando ou estudando em filmes. A família ainda a apoia, mas a sensação de prisão persiste.
A irmã de Shama, Nora, tem 18 anos e teme enfrentar o mesmo destino. Ela deseja continuar os estudos, mas acredita que a escola não reabrirá sob o governo talibã em tempo próximo.
Desde 2021, a resposta oficial sobre a reabertura das escolas para meninas tem variado, indo de questões de segurança a falta de confirmação. Atualmente, autoridades citam decisão não tomada pela liderança.
Em meio a relatos, o ministro da Educação afirma que cerca de sete milhões de meninos e cinco milhões de meninas estudam no país, mantendo restrição à educação além do sexto ano como tema separado.
Consultado, o porta-voz Hamdullah Fitrat evitou foto com a imprensa e repetiu a necessidade de resposta da educação. O ministério não respondeu a perguntas sobre o tema.
As entrevistas revelam divergências dentro do governo talibã sobre a educação feminina, enquanto a liderança suprema mantém posição rígida. Enquanto isso, a vida diária das mulheres fica cada vez mais restrita.
Para muitas, a percepção é de abandono internacional. Alia aponta que, sem apoio efetivo, mudanças significativas parecem distantes e improváveis no curto prazo.
Kamila dirige uma mensagem aos pais de todo o mundo: permitir que as filhas estudem e trabalhem pode abrir caminhos de independência, algo que, no Afeganistão, permanece distante para muitas famílias.
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