- Michel Alcoforado, antropólogo de 39 anos, lançou “Coisa de Rico” em agosto de 2025; em 50 dias, tornou-se best-seller com mais de 100 mil exemplares vendidos.
- O livro mostra ricos brasileiros com perfis exibicionistas e desejo de pertencer ao clube dos milionários, mesmo sem se reconhecerem como ricos.
- O texto aponta que a classe média e as elites leem a obra para entender como manter as diferenças sociais, sem necessariamente lutar contra a desigualdade.
- Alcoforado, que estudou consumo e realizou carreira internacional, ganhou visibilidade por meio de palestras, entrevistas, colunas e pelo podcast “É tudo culpa da cultura”.
- O autor defende que a antropologia pode aproximar leitores de diferentes grupos, ajudando a entender o Brasil e ampliar o acesso a ideias sobre sociedade.
Michel Alcoforado, antropólogo de 39 anos, tornou público um retrato incisivo da vida dos milionários brasileiros com o livro Coisa de Rico. A obra, lançada em agosto de 2025 pela editora Todavia, ganhou repercussão nacional e já vendeu mais de 100 mil exemplares entre edição impressa e e-book.
O autor descreve perfis exibicionistas de ricos que parecem desconectados da realidade, com gastos ostentatórios e insatisfação constante com o que têm. O objetivo é mostrar como o Brasil continua a produzir e manter diferenças entre classes, mesmo entre quem ostenta riqueza.
O livro nasceu de uma pesquisa de campo que mescla etnografia e análise de consumo. Alcoforado circulou entre a elite, coletou relatos e observou comportamentos que traduzem códigos de status, como a valorização de bens culturais e a busca por reconhecimento sem explicitar valores. Ele também aborda a psicologia da riqueza e as dinâmicas de poder entre gerações.
O que há por trás do sucesso
Segundo o autor, muitas leituras do público não se limitam a entender a desigualdade, mas a perceber caminhos de participação no jogo de status. Em suas análises, o “cadastro social” dos ricos não depende apenas de dinheiro, mas da habilidade de parecer rico para os pares.
Alcoforado comenta que o Brasil privilegia a discrição ao falar de renda, diferente de outras culturas onde o lazer é sinal de status. Parte da riqueza aparece por meio de objetos de arte, instalações e coleções que criam a aura de exclusividade sem revelar números. O conceito de ocupação constante também é central na elite brasileira, com agendas enxutas e atividades públicas que reforçam a imagem de produtividade.
Ele descreve ainda um baixo apreço pela filantropia entre muitos ricos, priorizando a gestão de bens herdados para manter o conforto de próximos, em vez de doações públicas promovidas. O tema, diz, ajuda a entender as escolhas que alimentam a desigualdade no país.
Trajetória do pesquisador e da obra
Filho de funcionários da Petrobras, Alcoforado cresceu em Niterói e enfrentou a percepção de ser parte de um universo predominantemente branco. Sua formação inclui graduações em História e Ciências Sociais, mestrado em Antropologia e doutorado no exterior, com atuação como consultor de marcas globais.
O autor ressalta que a imersão na elite foi desafiadora, exigindo ceder espaço e ganhar confiança para colher relatos. A experiência virou material do livro, que mistura observação, entrevistas e humor crítico para traduzir conceitos acadêmicos ao público leigo, sem perder a precisão analítica.
Desde o lançamento, o impacto da obra excedeu as expectativas de Alcoforado. O livro é visto como ferramenta de compreensão sobre as barreiras entre classes, além de abrir diálogo sobre como as elites moldam a percepção de riqueza e pertencimento na sociedade brasileira.
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