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Design editorial e gráfico brasileiro dos anos 1960: traços e referências

Anos sessenta consolidam o design gráfico brasileiro com a institucionalização do modernismo e a atuação de designers que passam a projetar livros inteiros e identidades visuais

Hugo Quinta e Maria Eduarda Xavier - Fotos: Arquivo pessoal
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  • Chico Homem de Melo é designer editorial, pesquisador e docente aposentado da FAU/USP; atua desde os anos 1980 e pesquisou iconografia, editoração e história do design gráfico brasileiro; concedeu entrevista em junho de 2025.
  • Formado em arquitetura pela USP, ingressou na FAU como docente em 1990 e atuou também na USP em São Carlos desde 1986; mantém dupla atuação como profissional e professor e administra um acervo de ilustrações de literatura brasileira que orienta suas pesquisas.
  • Trabalhou com editoras de destaque, incluindo Ática por cerca de quinze anos e, posteriormente, Scipione, Saraiva, Atual, Moderna e FTD; suas obras resultaram em pesquisas como Linha do Tempo do Design Gráfico no Brasil (2011) e O Design Gráfico Brasileiro: Anos 60 (2018).
  • Sobre a década de 1960, aponta a institucionalização do design modernista no Brasil via Esdi (Rio de Janeiro) e FAU (São Paulo), com mudanças curriculares que integraram design ao arquiteto; discute o papel do editor e a relação entre arte e texto nesse período.
  • Comenta a importância de designers como Eugênio Hirsch para a linguagem das capas na Civilização Brasileira e analisa parcerias entre concretos e designers, além de destacar o papel de Massao Ohno, Julio Pacello e outras figuras na edição de gravuras e na produção de livros de artista, livro-objeto e livro artesanal.

Chico Homem de Melo, designer editorial, pesquisador e docente aposentado da FAU/USP, fala sobre o design gráfico brasileiro dos anos 60. A entrevista, realizada em junho de 2025, aborda formação, atuação profissional e as transformações do período. O texto resgata o papel de escolas, editoras e figuras que moldaram o campo.

O designer lembra que iniciou como arquiteto na USP e logo migrou para a área de programação visual, hoje chamada de design. Mantém atuação dupla ao longo da carreira, mesclando prática profissional e ensino, com foco em edição de imagens e pesquisa iconográfica. Seu acervo pessoal sustenta obras sobre a história do design gráfico.

Ele revela que o trabalho com livros didáticos, nas décadas de 1980 em diante, foi decisivo para a consolidação de sua pesquisa. O acervo de ilustrações literárias brasileiras serviu de base para publicações como Linhas do Tempo do Design Gráfico no Brasil e O Design Gráfico Brasileiro: Anos 60.

Formação, atuação e acervo

Homem de Melo formou-se entre 1975 e 1979 na FAU da USP e ingressou como docente em 1990, permanecendo por 32 anos. Em 1986 iniciou carreira docente no curso de Arquitetura da USP em São Carlos, ampliando a prática pedagógica.

A dupla atuação profissional e acadêmica acompanha toda a trajetória. O designer lembra que o acervo, iniciado com ilustrações de literatura, evoluiu para as áreas de educação e cultura, incluindo projetos ambientais de exposições.

Durante a conversa, ele descreve a evolução do acervo para sustentar pesquisas, com ênfase na edição de imagens e na iconografia. O material embasa livros e exposições, como a mostra Dalton Trevisan – Espião de almas, realizada pela BBM/USP em 2025.

Parcerias editoriais e editoras

O relato aponta parcerias com editoras de grande peso no Brasil, especialmente Ática, por cerca de 15 anos, além de Scipione, Saraiva, Atual, Moderna e FTD. Os projetos abrangeram principalmente língua portuguesa e matemática.

O período 1960-70 é destacado para entender o papel das editoras no amadurecimento do design editorial. As limitações e possibilidades da época influenciaram a construção de capas e diagramações.

Design moderno e institutionalização

O entrevistado analisa a consolidação do design moderno no Brasil por meio da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi) no Rio e da FAU em São Paulo, ambas inauguradas na década de 1960. A reforma curricular de Artigas influenciou a formação integrada de designers e arquitetos.

A partir dessa institucionalização, surgem profissionais que atuam em várias frentes, incluindo o design editorial. O diálogo entre arte e design ganha espaço, com exemplos como a revista Senhor, de Hirsch, e as mudanças nas práticas de livro.

Hirsch, Scliar e a capa do livro

Sobre Eugênio Hirsch, o pesquisador destaca a relevância de seu papel na Civilização Brasileira. Hirsch é visto como designer que introduziu uma linguagem mais livre nas capas, em contraste com o rigor ensinado nas escolas.

A obra de Hirsch é apresentada como uma revolução na linguagem gráfica de capas, marcando uma ruptura com padrões anteriores e abrindo espaço para uma experimentação que dialoga com o modernismo.

Construtivismo, modernismo e o campo editorial

O design moderno no Brasil é visto como uma vertente que, embora normativa, abriu caminho para a definição de padrões no campo editorial. A relação entre modernismo, construtivismo e prática editorial é apresentada como integrada, com foco na produção de sistemas gráficos.

Devem ser ressaltadas as contribuições de Aloísio Magalhães, Alexandre Wollner e a dupla Cauduro Martino, que atuaram na difusão de ideais modernistas no Brasil. As funções docentes fortaleceram a formação de profissionais com visão sistêmica do design.

Parcerias entre concretos e designers

A conversa aborda a relação entre Augusto de Campos e Julio Plaza. Plenas de parceria entre poetas concretos e designers, com apoio técnico para a produção de obras como Caixa Preta e Poemóbiles, evidencia a colaboração entre áreas distintas.

O papel de Plaza como suporte gráfico para Augusto de Campos é destacado, evidenciando como as colaborações entre artistas e designers foram decisivas para dar visibilidade a projetos.

Julio Pacello e Massao Ohno

O entrevistado aponta o segredo de Pacello como editor artesanal, com ênfase na difusão de gravuras por meio da reedição de obras de artistas. O papel dele como impressor de gravura pode ter ofuscado a atuação editorial, segundo a avaliação.

Massao Ohno é destacado como editor artesanal dos anos 1960, promovendo livros poéticos com ilustrações originais. O modelo de colaboração entre texto e imagem foi uma marca de seu trabalho, especialmente no final dos anos 1950 e início dos 60.

Livro de artista, livro-objeto e artesanal

Por fim, o debate aborda o conceito de livro de artista, livro-objeto e livro artesanal, sem definição rígida. A visão aponta que o livro de artista privilegia a relação entre linguagem visual e conteúdo, com o objeto participando da obra e não apenas sendo um suporte.

O entrevistado recomenda cautela na fixação de fronteiras entre termos, enfatizando a importância de compreender a essência dos conceitos para a pesquisa, evitando simplificações e estereótipos.

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