Informações reveladas no âmbito das investigações sobre o Banco Master provocaram uma crise no Supremo Tribunal Federal (STF). Mensagens e relatórios que vieram a público expuseram as relações de Daniel Vorcaro com autoridades e levaram ministros da Corte ao centro de acusações cruzadas e pedidos de investigação.
Relembre, a seguir, os principais acontecimentos que desencadearam o embate no STF.
Novembro de 2025: PF prende Vorcaro
A origem do caso remonta a 18 de novembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero contra o Banco Master. Daniel Vorcaro, controlador da instituição, foi preso por suspeita de fraude financeira ao tentar embarcar para o exterior. No mesmo dia, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco.
A investigação chegou ao Supremo Tribunal Federal por envolver pessoas com foro por prerrogativa de função e ficou inicialmente sob relatoria de Dias Toffoli, que manteve o processo sob elevado grau de sigilo.
Meses depois, veio a público que Vorcaro havia comprado participação em um resort ligado à família de Toffoli. O episódio aumentou a pressão sobre o ministro, que deixou a relatoria em fevereiro de 2026.
Fevereiro de 2026: Mendonça assume o caso Master
Em 19 de fevereiro, o presidente do STF, Edson Fachin, indicou André Mendonça como novo relator do caso Master. Mendonça reduziu o grau de sigilo das investigações e ampliou a autonomia da Polícia Federal para a realização de diligências ordinárias.
Dias depois, a pedido da PF, decretou nova prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados, no âmbito da terceira fase da Operação Compliance Zero.
Foi também nesse período que veio a público um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes. Com a repercussão do caso, Moraes divulgou notas negando qualquer relação pessoal com Vorcaro.
Agosto: PF identifica autoridades citadas no celular de Vorcaro
A tensão aumentou em agosto. No dia 24, Mendonça determinou que a Polícia Federal identificasse, em até 72 horas, todas as pessoas que participaram ou foram mencionadas nas mensagens extraídas do celular de Vorcaro, incluindo eventuais autoridades com foro por prerrogativa de função.
Em resposta à determinação, a PF entregou, três dias depois, um relatório de 218 páginas. O material revelou trocas de mensagens entre Vorcaro e um contato salvo no celular do banqueiro como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, além de referências ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
1º de setembro: mensagens envolvendo Moraes vêm a público
No dia 1º de setembro, André Mendonça determinou o levantamento do sigilo do relatório da Polícia Federal que detalhava as trocas de mensagens entre Vorcaro e o contato atribuído a Alexandre de Moraes. O conteúdo indicava uma proximidade entre o banqueiro e o ministro e mostrava Vorcaro recorrendo ao interlocutor em momentos decisivos das investigações sobre o Banco Master.
Em uma das conversas, de 30 de outubro de 2025, Vorcaro pede ao interlocutor uma intermediação com o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e com o procurador-geral da República, Paulo Gonet, para tentar conter o avanço das apurações. “É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo para o saco”, escreveu.
Em 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, Vorcaro voltou a mencionar os dois e perguntou: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”. Na mesma conversa, o banqueiro também questionou se precisaria deixar o país diante da situação.
O relatório ainda trouxe novos elementos sobre o contrato de cerca de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Segundo a análise de metadados apresentada pela PF, um perfil registrado no sistema como “Ministro Alexandre Moraes” teria sido o último a editar um dos documentos.
2 de setembro: encontro entre Mendonça e Vorcaro é revelado
No dia seguinte, André Mendonça também passou a ser alvo de questionamentos.
Uma reportagem do jornalista Paulo Motoryn revelou que o ministro havia se encontrado com Vorcaro em 14 de março de 2025, antes de assumir a relatoria das investigações sobre o Master.
A reunião teria durado cerca de duas horas e ocorrido no Instituto Iter, fundado pelo próprio Mendonça em São Paulo. O encontro foi articulado pelo advogado Ciro Rocha Soares e pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP).
Mendonça confirmou que recebeu Vorcaro uma vez, a pedido do banqueiro. Segundo o ministro, o encontro tratou de uma ação envolvendo precatórios e ele posteriormente votou contra os interesses do Master no processo.
3 de setembro: Moraes pede investigação de Mendonça
A crise escalou em 3 de setembro.
Alexandre de Moraes retirou o sigilo de seis relatórios de inteligência produzidos pela PF sobre a atuação de Mendonça em investigações relacionadas ao Banco Master e às fraudes no INSS.
Com base no material, Moraes pediu formalmente a Fachin que a conduta do colega fosse investigada por suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.
Os próprios relatórios utilizados por Moraes, no entanto, registravam que as informações reunidas não tinham “valor comprobatório”.
No mesmo dia, Fachin decidiu concentrar a disputa em um novo procedimento, a PET 16.704, reunindo os episódios envolvendo Moraes, Mendonça, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues sob a competência do plenário do Supremo.
8 de setembro: Mendonça afasta diretor-geral da PF
A tensão aumentou em 8 de setembro, quando Mendonça determinou o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada.
O ministro alegou que os seis relatórios de inteligência produzidos pela PF em agosto haviam sido usados para monitorar sua própria atuação, a do advogado-geral da União, Jorge Messias, e a de integrantes da própria corporação.
Eram justamente esses documentos que Moraes havia utilizado ao pedir uma investigação contra Mendonça.
O ministro também determinou a abertura de uma apuração pela Corregedoria da PF e suspendeu a produção de relatórios de inteligência sobre integrantes da magistratura, da Advocacia-Geral da União e da própria polícia judiciária.
A decisão provocou reação interna. Onze diretores da Polícia Federal colocaram seus cargos à disposição em solidariedade a Andrei.
O caso foi levado para referendo da 2ª Turma do STF. Formou-se maioria para manter a decisão de Mendonça, com os votos do próprio ministro, de Luiz Fux e de Nunes Marques, mas o julgamento foi interrompido após pedido de vista de Gilmar Mendes.
No mesmo dia, os ex-presidentes e ministros aposentados do STF Celso de Mello, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Joaquim Barbosa e Rosa Weber divulgaram uma carta defendendo que a crise fosse decidida pelo plenário da Corte.
9 de setembro: Dino reintegra Andrei e Fachin suspende decisões
No dia seguinte, duas decisões conflitantes ampliaram a crise dentro do Supremo.
Andrei Rodrigues recorreu contra o afastamento em uma petição sob relatoria do ministro Flávio Dino. Dino aceitou o pedido e determinou a reintegração imediata do diretor-geral da PF e de Leandro Almada.
Na decisão, Dino criticou Mendonça e argumentou que uma decisão dessa natureza caberia ao plenário, uma vez que Fachin já havia aberto um procedimento específico para concentrar a análise da crise.
O ministro também afirmou que os afastamentos poderiam prejudicar investigações em andamento e sustentou que Andrei havia apenas cumprido determinações judiciais.
Horas depois, Fachin interveio diretamente no embate.
O presidente do STF suspendeu tanto a decisão de Mendonça, que havia afastado Andrei e Almada, quanto a decisão de Dino, que determinava a reintegração.
Na prática, Andrei continuou no comando da PF, enquanto os efeitos das duas decisões foram neutralizados.
Fachin classificou a situação como um “conflito inconciliável de posições judiciais” e afirmou que os comandos expedidos eram incompatíveis entre si.
Também determinou que Andrei apresentasse informações em 48 horas e centralizou formalmente a condução da crise na Presidência do STF, dentro da PET 16.704.
No mesmo despacho, Fachin marcou uma sessão extraordinária do Supremo para 15 de setembro.
10 de setembro: Mendonça amplia quebra de sigilo
Em 10 de setembro, Mendonça retirou o sigilo de praticamente toda a investigação relacionada ao caso Master.
A decisão foi tomada após pedido de Fachin e não se limitou ao relatório que envolvia Moraes. Também passaram a ficar acessíveis peças de diferentes inquéritos, petições e reclamações relacionados ao banco.
Mendonça determinou ainda que HDs com a íntegra dos autos fossem enviados à Presidência do STF e aos gabinetes dos demais ministros da Corte.
A abertura do material ampliou o alcance público da investigação e permitiu o acesso a documentos que, nos dias seguintes, revelariam outros personagens ligados a Vorcaro.
11 de setembro: relatório revela contatos de Flávio Bolsonaro com Vorcaro
Em 11 de setembro, veio a público um relatório da Polícia Federal que aponta ao menos oito contatos diretos entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro entre agosto e novembro de 2025.
As conversas tratavam do financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.
A investigação apura suspeitas relacionadas à movimentação de cerca de US$ 12 milhões no exterior e R$ 6 milhões no Brasil para o projeto.
O relatório aponta encontros, ligações e mensagens entre Flávio e Vorcaro. Em 16 de setembro de 2025, por exemplo, uma ligação entre os dois coincide com uma remessa de US$ 1,66 milhão de uma empresa ligada ao banqueiro para um fundo nos Estados Unidos.
Em outra mensagem, enviada em 16 de novembro, na véspera da prisão de Vorcaro, Flávio escreveu ao empresário: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.
Flávio inicialmente negou ter pedido dinheiro ao banqueiro para o filme, mas depois confirmou a solicitação de recursos. O senador afirma que se tratou de uma captação privada de patrocínio e nega irregularidades.
12 de setembro: Fachin separa julgamentos de Moraes e Mendonça
Segundo o presidente do STF, os dois procedimentos estão em fases diferentes. O caso envolvendo Moraes ainda está em instrução, com coleta de informações e manifestações, enquanto o processo sobre a atuação de Mendonça já havia sido liberado para julgamento.
Com isso, Fachin manteve separados os dois casos.
A sessão extraordinária marcada para 15 de setembro será dedicada ao procedimento envolvendo Moraes. Já a atuação de Mendonça como relator das investigações do Banco Master deverá ser analisada pelo Supremo em 23 de setembro.
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