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Impacto das “midterms” no Brasil: derrota de Trump pode frear tarifaço, mas não pressão das big techs

Para pesquisadora, custo político das tarifas e Congresso de oposição favorecem recuo dos EUA, enquanto influência econômica deve manter resistência à regulamentação das plataformas

Donald Trump, de terno azul e gravata roxa, aparece sentado, com expressão séria e olhar voltado para a frente.
Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, durante reunião na Casa Branca, em Washington. (Foto: Divulgação/Casa Branca)

A vitória dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos pode, além de impor obstáculos à agenda legislativa do presidente Donald Trump nos próximos dois anos, favorecer um recuo no tarifaço imposto aos produtos brasileiros.

A avaliação é de Lívia Peres Milani, pesquisadora do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais (IPPRI) da Unesp e pesquisadora associada do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-INEU), em entrevista ao Portal Tela.

Segundo a pesquisadora, o tarifaço imposto pelo governo Trump a diversos países gerou custos políticos importantes, o que torna um recuo “mais provável”. No caso do Brasil, os Estados Unidos anunciaram, em julho deste ano, sobretaxas de 25% e 12,5% sobre determinados produtos, que podem chegar a 37,5% quando aplicadas conjuntamente.

Para Milani, a tendência é que o presidente perca força, já que, a partir de janeiro de 2027, terá de lidar com um Congresso de perfil diferente, mais disposto a questioná-lo. Nesse cenário, um dos principais contrapesos às medidas mais controversas de Trump será o poder de fiscalização do Legislativo sobre a Casa Branca.

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Na prática, a nova maioria democrata poderá questionar a legalidade e a legitimidade das decisões presidenciais, convocar integrantes do governo para audiências públicas, abrir investigações por meio das comissões parlamentares e exercer controle sobre os recursos destinados a ações no exterior.

Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado nas eleições de terça-feira (3), com vitórias inclusive em estados tradicionalmente republicanos, como Texas, Iowa e Kansas.

Para Milani, a chamada “onda azul” também tem um peso simbólico por evidenciar a perda de apoio ao presidente, cuja desaprovação estava em 64% às vésperas da votação, segundo pesquisa Reuters/Ipsos.

“Ele já não é mais aquele presidente que era no início do mandato, que tinha aceitação da população. O governo dele já vinha passando por um processo de reprovação, e essas midterms são como um referendo ao governo dele”, disse.

A maior resistência no Congresso, porém, não significa que as medidas de Trump serão automaticamente revertidas ou que as pressões americanas diminuirão de forma generalizada, sobretudo em temas que envolvem interesses de grandes empresas dos Estados Unidos.

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Para a pesquisadora, as pressões contra a regulamentação das big techs no Brasil devem continuar, devido à influência econômica e política dessas empresas nos Estados Unidos.

“O Congresso e o Executivo não são os únicos atores presentes nesse caso. A gente também tem o poder econômico dessas empresas, que não pode ser desconsiderado”, avaliou.

Ao mesmo tempo, o novo cenário pode abrir espaço para uma aproximação entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e parlamentares americanos, especialmente os da ala progressista do Partido Democrata.

Milani lembra que Lula já buscou fortalecer os laços com forças progressistas dos Estados Unidos durante o governo de Joe Biden, por meio de encontros, declarações conjuntas e parcerias. Segundo ela, esse diálogo pode ser retomado, inclusive com a possibilidade de congressistas americanos defenderem interesses brasileiros.

Trump pode buscar ganhos na política externa

Embora a vitória democrata possa servir de freio a parte das decisões de Trump, o presidente ainda mantém ampla autonomia na política externa, cuja condução é uma das principais atribuições do Executivo nos Estados Unidos.

Assim, o enfraquecimento no Congresso não significa necessariamente que Trump adotará uma postura mais moderada nas relações internacionais. Para Milani, a manutenção de um tom mais agressivo pode ser usada para compensar o enfraquecimento político interno.

“Como ele tem uma prerrogativa maior em política externa, pode ser também que ele se torne mais assertivo nessa área para diminuir essa perda de poder, que é ainda mais acentuada no âmbito interno”, afirma.

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Segundo a pesquisadora, é relativamente comum que presidentes em fim de mandato e politicamente enfraquecidos, conhecidos como lame ducks (“patos mancos”, em português), busquem conquistas na política externa, área em que têm maior margem de manobra. Ela ressalta, contudo, que a imprevisibilidade de Trump exige cautela ao antecipar seus próximos passos.

Um dos espaços em que isso pode acontecer é o Escudo das Américas, coalizão liderada pelos Estados Unidos e criada em março deste ano sob a justificativa de combater o crime organizado e os cartéis de drogas na América Latina. Especialistas também veem a iniciativa como um instrumento para ampliar a influência de Washington na região e abrir caminho para intervenções sob o argumento da segurança.

“É um espaço importante para a produção de consensos entre esses países, para declarações conjuntas, para recomendações que depois se tornam políticas internas. Me parece que talvez seja um âmbito no qual o Trump pode querer aumentar sua influência para se contrapor a essa perda de poder no Congresso”, avalia.

Disputa com a China deve permanecer

Apesar das diferenças entre democratas e republicanos, Milani destaca um consenso: a visão de que a presença econômica da China na América Latina representa uma ameaça à hegemonia dos Estados Unidos na região.

“A ideia de retomar uma primazia dos Estados Unidos na América Latina me parece uma questão bipartidária”, apontou.

Essa preocupação ocorre em meio ao avanço chinês no comércio internacional. Em 2001, mais de 80% das economias comerciavam mais com os Estados Unidos do que com a China. Em 2023, o cenário havia se invertido: cerca de 70% delas, ou 145 das 205 analisadas, já comerciavam mais com os chineses. Em 112 casos, o comércio com a China era mais que o dobro do registrado com os americanos, segundo estudo do Lowy Institute publicado em 2025.

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O Brasil acompanha essa tendência. A China ultrapassou os Estados Unidos como principal parceiro comercial do país em 2009. Em 2025, as trocas entre Brasil e China atingiram o recorde de US$ 171 bilhões, mais que o dobro dos US$ 83 bilhões movimentados com os americanos.

Para Milani, a nova composição do Congresso não deve alterar essa preocupação estratégica. A pesquisadora avalia que a retomada dos princípios da Doutrina Monroe, formulada no século 19 e historicamente associada à afirmação da influência americana no continente, tende a continuar.

A diferença entre os partidos, segundo ela, estaria principalmente na forma de conduzir essa disputa. Enquanto Trump privilegia uma postura abertamente agressiva, com tarifas e sanções, um governo democrata poderia buscar objetivos semelhantes por meio de outras estratégias, como diálogo, cooperação e parcerias.

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